Entrevista com Jess Wade

Nos dias 12 a 16 de março, aconteceu a Semana das Mulheres – Mulheres do Amanhã no Museu do Amanhã, localizado no Rio de Janeiro. O evento trouxe convidadas para debater sobre o quanto é preciso avançar e quão longe as mulheres já foram. Eu consegui prestigiar o evento na terça-feira dia 12, numa mesa que teve o título Mulheres na Ciência: Conquistando espaços e inspirando transformação. As convidadas para a mesa foram a Diana Daste, do British Council, que falou sobre o evento WoW que aconteceu no Rio de Janeiro no ano passado, Jess Wade, que falou do seu projeto de adicionar a biografia de uma cientista por dia na Wikipédia, Helena Nader, presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que falou de forma muito divertida sobre as diferenças entre homens e mulheres na careira cientifica e Flávia Oliveira, colunista do jornal O Globo, que falou sobre as dificuldades que as mulheres negras tem na carreira. Ao final do evento, infelizmente só consegui falar com a Jess e consegui fazer uma entrevista em áudio para o podcast microbiando, mas ao chegar em casa, percebi que por causa da barulheira no fundo causado pelas inúmeras pessoas também querendo falar com ela, estava inviável de usar o áudio dessa maneira. Então, transcrevi e traduzi nossa conversa e deixo aqui para vocês. Era para ter sido publicado na mesma semana no site A Ciência Explica, mas como está todo mundo ocupado, acabamos esquecendo, então coloco aqui.

Eu e a Jess no final da conferência

Adriana: Olá, meu nome é Adriana Cabanelas, do podcast microbiando e eu estou aqui com a Jess Wade, que vai falar para a gente sobre o projeto dela.

Jess: Oi, meu nome é Jess e eu sou uma física em Londres. Eu trabalho no Imperial College London em novos materiais para aparelhos eletrônicos e no meu tempo vago eu realmente tento fazer da Wikipédia um lugar mais diverso, então eu gasto meu final de tarde escrevendo a biografia de cientistas mulheres e pessoas não brancas porque eles não são tão representados no site quanto deveriam ser e eu quero que todo mundo saiba o que eles estão fazendo.

Adriana: Sim, isso é ótimo. Você mostrou na sua palestra que ninguém escreve sobre as mulheres no site. Que é possível encontrar várias páginas de suas invenções e descobertas, mas nada sobre elas e suas vidas.

Jess: Exato, e nós ouvimos muito sobre isso, sejam nos livros didáticos que lemos na escola ou nas coisas que usamos todos os dias, nós usamos e dependemos da tecnologia e invenções das mulheres e das pessoas não brancas, mas não sabemos nada sobre eles. Um exemplo famoso é o Bluetooth e a tecnologia que nos permitiu desenvolver o bluetooth, que foi concebida pela primeira vez pela atriz e inventora Hedy Lamarr, eu acho que ela era germano-americana, mas ela era uma mulher numa época em que mulheres não eram permitidas ou incentivadas a serem inventoras. Mais recente, a gente tem o pulsar. Jocelyn Bell Burnell, uma astrofísica britânica, descobriu os pulsares, que revolucionou totalmente a astronomia e a astrofísica na época, pois ninguém imaginava que isso existia, abrindo todo um novo campo da ciência com pessoas estudando essas estrelas de nêutrons que giram e foi o pensamento diferente dela que permitiu essa descoberta, então mais pessoas precisam saber sobre as pessoas por trás das descobertas, certo? Nem todo mundo vai se tornar um cientista, mas os cientistas são pessoas normais e isso é importante.

Adriana: Sim, com certeza. É um projeto incrível.

Jess: Obrigada

Adriana: Agora fala um pouco sobre o outro projeto, o do livro.

Jess: O outro projeto que eu fiz, e a Wikipédia é fantástica, uma maneira incrível de interagir com um grande número de pessoas rapidamente e um grande número de pessoas leem. As pessoas usam a Wikipédia para procurar fatos, conhecimentos, como as coisas são e trabalhos universitários e o que eu descobri e que as pessoas queriam falar sobre a Wikipédia pelo entusiasmo de faze-la melhor, para coletivamente fazer ela trabalhar melhor, para fazer a internet um lugar melhor. Eu recebi de repente tantos e-mails entusiasmados de pessoas ao redor do mundo que queriam fazer mais para celebrar pessoas que representem as minorias e pessoas que costumavam trabalhar na minha universidade me disseram que era ótimo, que era bom alguém estar fazendo isso e contando a história dessas pessoas. O livro que eu estava lendo na mesma época, da Angela Saini, chamado “Inferior: How Science Got Women Wrong and the New Research That’s Rewriting the Story” (tradução livre do título: Inferior: Como a ciência errou com as mulheres e a nova pesquisa que está reescrevendo a história) eu não sei o nome em português.

Adriana: O nome em português é ótimo, “Inferior é o caralho”. (Aponta pra capa na mão dela) Caralho é um palavrão demonstrando insatisfação.

Jess: Excelente, eu acho ótimo que tenham dado esse nome, (risos de ambas) mas em inglês é só Inferior, falando do verdadeiro poder da mulher e da ciência que mostra isso e é uma história fenomenal de como a história e a ciência foram tão determinados em mostrar que as mulheres e os homens são diferentes com experimentos científicos e de engenharia sem a estatística por trás desses experimentos para provar que os homens e as mulheres são biologicamente diferentes como as pessoas queria, mas as pessoas competiram e tentaram ser pioneiras nessa mensagem e isso foi prejudicial para a sociedade, você sabe como é, o “eu fiz” ou “as mulheres são intelectualmente inferiores” ou “elas só conseguem algumas coisas e portanto só deveriam estudar essas matérias e os meninos aquelas”, todas elas são baseadas em ciência ruim, que nunca conseguiu ser reproduzida, mas que impactou a maneira como vemos o mundo e a maneira como as garotas pensam sobre a si mesmas. E esse livro foi incrível e transformou a minha vida e me deu voz para falar sobre essas coisas e me deu uma rede de pessoas que também estão lutando por equidade, então eu tento usá-lo e com todo o poder do suporte das pessoas que gostam do projeto da Wikipédia e o entusiasmo das pessoas nas redes sociais eu comecei uma campanha de financiamento coletivo para comprar uma cópia do livro para cada escola do Reino Unido e o valor foi atingido bem rápido e gerou campanhas similares nos EUA, no Canadá e na Nova Zelândia. Agora é com vocês fazer uma no Brasil.

Adriana: Sim, o Brasil é bem grande, mas se pelo menos uma pessoa de cada estado se comprometer a ajudar na organização, acho que conseguimos.

Jess: Com esse nome com um palavrão não tem como não ser um sucesso (risos de ambas).

Adriana: Obrigada pela entrevista

Jess: (falando em português) Obrigada

Então é isso, espero que vocês tenham gostado da entrevista e de conhecer a Jess. Ela também disse na palestra que ajuda muito que pessoas nativas de outras línguas traduzam os verbetes que ela põe em inglês para diferentes línguas, então se você gostou e tiver interesse, você pode escolher uma cientista por dia e traduzir para o português. O livro que ela recomenda a leitura foi publicado pela Darkside, mas está esgotado em vários lugares. E ouçam a minha vozinha no podcast Microbiando.

Eu com cara de morta às 8h da manhã pra gravar podcast.

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