Bastardos em A Song of Ice and Fire

Mentiroso

Tenho visto muita confusão em relação a condição de Jon Snow após a revelação de sua origem, além de pessoas empolgadíssimas com o possível desenrolar da situação. Resolvi escrever esse texto para falar de bastardia em ASOIAF, para clarear quem está confuso. Esse texto está baseado principalmente nos livros, mas não reli nada para checar, então se eu escrever algo incorreto, por favor me avisem.

Vamos começar com termos. Segundo os livros e série, bastardo é todo aquele que nasce fora do casamento. Para quem lê os livros mais que para quem viu a série, percebe-se que a sociedade de Westeros coloca um estigma social muito indesejado nos bastardos. Todas as grandes religiões veem a bastardia como uma coisa muito ruim. Sendo os próprios frutos de traição, acredita-se que os bastardos são por natureza traiçoeiros e pouco confiáveis.

“The old High Septon told my father that king’s laws are one thing, and the laws of the gods another. Trueborn children are made in a marriage bed and blessed by the Father and the Mother, but bastards are born of lust and weakness, he said. King Aegon decreed that his bastards were not bastards, but he could not change their nature. The High Septon said all bastards are born to betrayal …” — Egg para Duncan em A Knight of the Seven Kingdoms

Para começar, mesmo nas pessoas comuns, bastardos não são bem vistos. Mas não existe algo que os distingue imediatamente, pois as pessoas comuns não têm sobrenome, e os seus bastardos também não. A distinção e o estigma que vemos nos livros e série vem dos bastardos das casas nobres. Esses recebem um sobrenome bastardo, que serve para marcar que não são nobres, mas também não são pessoas do povo. Então a partir daqui ao referir bastardo, são bastardos com sobrenome, ok.

Quais são os direitos legais aos bastardos? Nenhum. Eles não têm direitos a terras, nem a usar o nome da família, nem a nenhum privilégio. Se o pai for nobre e a mãe for uma pessoa comum, eles podem nem ter o direito a reconhecimento da paternidade. Ou seja, cabe ao lorde decidir como esse deve ser tratado. Ele pode reconhecer a paternidade, ajudar com dinheiro, ou levar para ser criado em alguma casa, mas se ele não quiser nada disso, o bastardo é uma pessoa comum como qualquer outra. Veja o caso do Gendry. Ele é filho do Rei Robert, mas o Rei nem sabe que ele existe, razão pela qual ele não tem sobrenome, ele não se apresenta como Gendry Waters, ele é apenas Gendry. Um excelente exemplo de pessoa que passou por todo tipo de bastardia é o Ramsay Snow/Bolton. Quando nasceu, ele não tinha sobrenome, pois o pai disse que ia ajudar na criação com dinheiro, mas não queria mais ver a criança. Já mais velho, ao descobrir que era filho de lorde, perturbou tanto a todos que foi finalmente reconhecido pelo pai e recebeu o sobrenome Snow. Nesse ponto, ele continua sem direito a absolutamente nada. Em certo ponto, sem mais herdeiros para casa Bolton, Lorde Roose pede para que ele seja legitimado pelo Rei Tommen e este passa a ser Ramsay Bolton, e é apenas então que recebe todos os direitos de sua casa. Assim, bastardos por parte de pai podem ser ignorados; suas mães podem receber dinheiro para criação, mas não ocorre reconhecimento; podem ser reconhecidos, eles recebem um sobrenome bastardo e são enviados para serem criados em outra casa, longe da família (o mais comum, para não ofender a esposa e a religião) e por último serem legitimados. O “pseudocaso” do Jon é raríssimo, em geral um lorde não leva seu bastardo para sua própria casa, por ser altamente escandaloso, um dos motivos pelo qual Lady Catelyn odeie tanto o Jon.

Evolução pokemon do mal: Ramsey -> Ramsey Snow -> Ramsey Bolton

Como não tem direito a nada, em geral os bastardos precisam buscar algum reconhecimento em tarefas que não exijam um nome. Muitos se unem voluntariamente a Patrulha da Noite, outros vão se tornar Meistre na Cidadela, alguns são enviados quando crianças para a Fé dos Sete e boa parte procura se tornar um cavaleiro. O primeiro é uma instituição mais igualitária — onde o nascimento não é um fator que decide as posições ocupadas — e até um plebeu pode se tornar um Lorde Comandante, logo, um bastardo pode assumir qualquer posição. Mas se tornar um cavaleiro é a melhor opção, pois se este se mostrar um bom cavaleiro, pode ganhar um lugar na mesa de um grande lorde, conseguir algumas terras como resultado dos seus serviços prestados e até mesmo começar sua própria casa, com um novo nome e brasão, se tornando ele próprio um novo lorde. As bastardas têm menos opções, sendo um bom casamento ou a Fé os caminhos mais comuns e desejados.

Em geral, os bastardos recebem como sobrenome um indicativo da região. Olhando os bastardos no livro, dá a impressão de que eles recebem esse sobrenome de acordo com a região em que são criados e não de onde os seus pais se originam, mas não existe uma regra clara falando sobre isso nos livros, é a minha especulação. Assim, do Norte para o Sul, os criados no Norte recebem o nome Snow, os nas ilhas de Ferro são Pyke, os no Vale de Arryn são Stone, os nas Terras Fluviais são Rivers, os nas Terras Ocidentais são Hill, os em Porto Real e entorno são Waters, os na Campina são Flowers, os nas Terras da Tempestade são Storm e os em Dorne são Sand. Mas não é uma regra e os pais podem criar um sobrenome qualquer, vide Tyrion Tanner.

As Serpentes de Areia da série. Porque? Pra que? Vergonha alheia, só pode!

A legitimação dos bastardos é uma coisa rara, e só pode ser concedida por um rei. É uma coisa rara por que em geral só causa confusão. Confusão porque não existe uma regra sobre como deve ser a colocação dos ex-bastardos na linha de herança. Sempre que aconteceu, os legítimos acreditavam que era após todos os legítimos, já os ex-bastardos que era por ordem de nascimento. Na série podemos ver bem claramente, ao nascer o filho da Walda gorda, o papel de primeiro herdeiro do Ramsey fica nebuloso, o que o faz se livrar do pai e da criança, sendo assim único herdeiro (e patricida, mas na série isso parece ser super de boas!). Então, em caso de legitimação com filhos legítimos, ao morrer o Lorde, os filhos acabavam brigando entre si e criando guerras. E só pensar que uma das maiores guerras se deu porque um Rei Targaryen resolveu legitimar todos os seus bastardos, criando uma bela confusão na linha de sucessão ao trono. Imagino que é por isso também que o Rei Joffrey mandou matar todos os bastardos do Rei Robert, por mais que eles não tivessem direito a coisa alguma, nem mesmo a um lugar na linha de sucessão, mas o Joffrey sendo um bundão, ficou com medo (mais irônico o fato de ele próprio ser um bastardo, assim por mais que alguns fãs de ASOIAF se referiram aos filhos da Cersei como sendo Lannister, o correto seria Waters, pois lembrem, ela e o Jamie não são casados e nem poderiam ser). Assim, em geral, só se realiza a legitimação do bastardo se não houver mais nenhum filho legitimo capaz de herdar a casa e o pai está morrendo e não vai ter mais filhos.

Rei Joffrey Waters, foi tarde!

Ao se tornar de alguma forma famoso, como no caso de ser um cavaleiro, é dado ao bastardo a opção de criar para si um brasão. Isso porque, sem legitimação, é proibido usar o da casa da qual é bastardo. Esse poderia criar o brasão que bem quisesse, usando sua criatividade, mas de praxe e de forma pouco criativa, os bastardos retratados na história invertem as cores do brasão da família de origem ou acrescentam um adorno, como uma faixa sobre o brasão original. Assim, se o Jon não tivesse ido para a Patrulha e se tornasse um cavaleiro, ele poderia criar para si um brasão de um lobo branco em um fundo cinza, o inverso do lobo cinza em fundo branco dos Stark. Se tivesse ficado ainda mais famoso e ganhasse um castelo, poderia criar um novo sobrenome para si. Um caso famoso é a da família Blackfyre, criada por Daemon Blackfyre, anteriormente Daemon Waters (ou Rivers, não lembro mesmo) que usou o nome da espada valiriana que recebeu do pai como sobrenome de sua recém-criada casa. Ele foi legitimado e lutou pela sucessão ao trono contra seu meio-irmão e herdeiro legitimo, mas perdeu. Ainda assim, a casa continuou arrumando treta com os Targaryen pelo trono por gerações. Com o costume da falta de criatividade dos bastardos, a casa Blackfyre ganhou um brasão de um dragão de 3 cabeças negro sobre um fundo vermelho, exatamente o oposto da Casa Targaryen. A própria casa Baratheon foi uma casa criada por um irmão bastardo de Aegon o conquistador, que mostrando ainda menos criatividade, simplesmente pegou o brasão e lema da família que morava em Ponta Tempestade (imagina o diálogo: — Senhor, precisamos de um brasão para sua casa. — Ah, tô com preguiça, esse que já tá na parede num tá bom? E já vem até com lema.)

Daemon Blackfire e seu super criativo brasão.

Dorne é uma exceção em relação a Westeros. Eles são mais relaxados em relação a bastardos, uma vez que os nobres podem ter amantes formais e os filhos dessa relação são criados na casa junto aos filhos legítimos. Também é mais relaxado pois os bastardos também entram na linha de sucessão, após o mais novo dos legítimos. E não existe a estigma social das outras localidades. Mas mesmo assim, não são como crianças legitimas, como podemos ver o caso do Oberyn Martell e da Ellaria Sand. Ellaria é uma bastarda de uma das casas mais poderosas de Dorne, e foi criada junto do resto de sua família, mas ainda assim não está em posição de se casar com o Príncipe Oberyn, então este a toma como amante, mesmo a querendo na verdade como esposa. Nas ilhas de ferro também existe uma certa distinção. Como os lordes tem uma esposa, mas podem ter várias esposas de sal (concubinas cativas), os filhos dessas esposas de sal não são considerados bastardos, mas ainda assim entram na linha sucessória após os filhos da esposa oficial.

Acho que eu coloquei acima tudo o que eu lembrava sobre bastardia. Agora podemos considerar o que acontece com Jon Snow, agora que sabemos quem são seus possíveis pais (ridículo esse suspense de sussurinho, seus moços produtores). Temos certeza que Lyanna é a mãe e ela sussurra o nome do pai e afirma que Robert não pode saber. Então, primeiras pessoas confusas, não, o Robert não é o pai, não faz sentido, ele adoraria saber que tem um filho com a mulher que acha que ama. Segundo, ela está numa torre cercada de guardas reais. Isso indica um Targaryan como pai. E como é dito que Rhaegar a “sequestrou”, o mais provável é que ele seja o pai.

Torre da Alegria

Bem, se estamos certos que R+L=J, isso faz de Jon um Jon Targaryan? Pouquíssimo provável. Porque para ele ser um filho legitimo, ele precisa ser filho de um casamento. Na época do acontecimento, Rhaegar já é casado pela Fé dos Sete com a princesa Elia Martell. Ou seja, para casar com a Lyanna, ele teria que convencer um septão a celebrar um casamento com uma segunda mulher. A Fé dos sete proíbe a poligamia. Antes da conquista, os Targaryans eram poligâmicos, mas do momento em que aderiram a Fé dos Sete, não houve mais casamentos poligâmicos nessa família (houve uma tentativa, que foi terminantemente recusada. Os Septões já tinham que fazer uma baita vista grossa para o incesto, era pedir demais mais de uma mulher). Mas a Lyanna era nortenha, eles podem ter se casado pela Fé dos Deuses Antigos? Não sei dizer se essa religião aceita poligamia. Mas acho que não, afinal a única referência a um poligâmico que lembro é o Craster, que casava com as próprias filhas, e não pode ser considerado um padrão. Assim, eu acho bem inviável que eles tenham se casado, seja qual for a religião (mas como a série sempre usa a desculpa mais besta para explicar qualquer coisa, eu não vou me surpreender se aparecer uma cena dos dois felizes se casando). O que sabemos é que claramente o Rhaegar queria três filhos (as três cabeças do dragão), e já tinha dois com a Elia, que não podia ter mais nenhum. Ele pode apenas ter considerado que quando fosse rei, legitimaria seu terceiro filho e ponto. Nesse ponto de vista, Jon Snow continua Snow, filho bastardo de Rhaegar e Lyanna, pois Rhaegar morreu antes de poder legitima-lo.

Rhaegar coroa Lyanna rainha do amor e da beleza

Enquanto era Rei do Norte, Robb Stark pensou em legitimar o Jon e faze-lo seu herdeiro, visto que ele achava que Bran e Rickon estavam mortos. Mas se ele fez um testamento e onde este estaria é incerto. Stannis quando se proclamou rei também ofereceu a legitimação ao Jon, mas este recusou. Então em ambos os casos ele continua Jon Snow.

Mas na série ele acabou de ser coroado Rei do Norte. Nesse caso, ele pode muito bem se autolegitimar (porque não?) e se tornar um Stark. Seria o que eu faria, mas o Jon apresenta o gene não muito esperto, porém muito honrado dos Stark como dominante. Vai saber o que ele vai fazer. Das confusões, eu tenho visto muita gente por aí dizendo que ele vai ter que obrigatoriamente mudar o brasão para o lobo branco no fundo cinza, mas se ele se legitimar, ele não precisa não, o próprio Ramsay na série usou o do pai sem nenhum problema, assim como outros bastardos legitimados. E ele é rei. Como rei ele faz o que der na telha, então se quiser mudar, muda, se não quiser, não muda.

Vamos lembrar que o Jon conquistou o cargo de Rei do Norte pelo fato que os nortenhos acreditam que ele é filho do Ned Stark. O que a revelação de R+L ocasionaria nesse reinado? Eu acho que dá ruim. O povo do Norte é um pessoal mais tradicional, então descobrir que o Jon não é filho do Ned, mas um bastardo da Lyanna, ainda mais com um sulista, vai deixar a nomeação mais fraca. A Sansa era a candidata Stark de direito e o pessoal o escolheu, mesmo sendo bastardo, só por ser homem e guerreiro. Mas ser homem basta? Então se eu fosse o Jon, quando o Bran aparecesse (e recusasse a posição, pois ele seria por direito o verdadeiro Rei do Norte) e contasse a verdade, eu ia agradecer pela informação, afinal ele quis saber disso a vida toda e depois implorava para o Bran não contar para ninguém, para se manter um rei incontestável.

O da Lyanna serve?

Quanto ao trono de ferro, Daenerys tem o direito hereditário, ainda mais com a extinção da casa Baratheon e pelo fato de Cersei “rainha louca” apesar de ter algum direito, sofrer uma grande rejeição popular (pelo que eu vi por aí, se você buscar na linhagem Baratheon quem teria direito ao trono com a morte do Tommen, estranhamente seria a Cersei, via tatata…ravo). No fundo, quem senta no trono a partir de agora é quem tem mais poder bélico, foi assim que a Cersei sentou e a Daniela dos dragões tem muito mais exército, além de três dragões. Jon como bastardo continua sem direito ao trono, mesmo filho de Rhaegar. Como Rei do Norte ele pode se legitimar Targaryan (o que seria meio estupido, pois acho que perderia o apoio do Norte) e querer concorrer ao trono. Nesse caso ele poderia até se encaixar antes da Dany na sucessão, mas vai certamente tomar um Dracarys na fuça para aprender a ser esperto nessa vida. Ele não tem a força militar necessária nem para defender o Norte, quanto mais para tomar Porto Real. Nesse sentido, se o Jon for minimamente esperto, vai deixar o trono para Dany e vai convence-la a se aliar na luta contra os White Walkers, que é o que realmente importa nessa joça, pois caso contrário vai todo mundo morrer.

Quero ver quem é maluco de peitar dragão

Bem, isso era o que eu tinha a dizer sobre bastardia e alguns chutes sobre o futuro da série. Se gostou, clica no coração.


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