Mentirinhas para ter uma consciência limpa.

Mentirinhas para ter uma consciência limpa.

Eu estava na Sephora só olhando (eu juro que não comprei nada, realmente estou economizando) quando a vendedora mala que não parava de falar disse “e ainda é cruelty-free”. Eu dei uma bela risada sarcástica. Foi involuntário, mas selos cruelty-free ou de coelhinhos pulando me soam de uma hipocrisia imensa. Ninguém gosta da ideia de estar fazendo algo “errado” e estes selos dão aquela sensação de alívio de estar comprando algo e ao mesmo tempo fazendo o bem, então fingimos que está tudo bem e nos deixamos enganar.

A sua marca de cosmético e maquiagem pode estar lá, toda linda, dizendo ser contra crueldade animal, que não testa em animais, mas ela é uma companhia e você acha seriamente que ela vai botar algo na sua cara sem saber se aquele produto é irritante ou tóxico? Que vai ficar de boa e depois arcar com as indenizações pelas pessoas machucadas pelo produto? Eu não sou tão bobinha para achar isso, mas cada um na sua.

Cruelty-free

Primeiro, “sem crueldade” pode significar qualquer coisa. E uma frase muito ambígua. Para mim, não significa nada. Segundo, uma empresa pode facilmente colocar a frase “nós não testamos em animais”. Basta para isso contratar uma empresa que faça isso por ela. Ela não faz, quem faz é a outra. Terceiro, a frase “esse produto não foi testado em animais” significa que o produto final não foi testado, mas os seus componentes individuais foram testados. Quarto, coelhinhos são fofos, vamos botar um coelhinho na embalagem para vender mais.

Sim, são fofinhos, eu gosto desses logos, mas não me dizem nada.

O primeiro acima, o “Leaping Bunny, da “Coalition for Consumer Information on Cosmetics” licencia um logo de coelho para companhias que a organização certifica como sem crueldade. Várias marcas usam esse selo. Em geral, não é difícil para uma companhia ser enquadrada para usar esse selo. O programa certifica “empresas em que nenhum novo teste em animais é usado pela companhia, seus laboratórios ou fornecedores”. Ou seja, basta usar matérias primas que já foram estudadas e analisadas incansáveis vezes no passado.

Vou tentar explicar: Não existe nenhuma companhia que possa vender produtos que não foram testados. Na maioria dos países tem leis de proteção ao consumidor e de segurança do trabalho e as companhias tem que provar que seus produtos não são tóxicos ou perigosos para essas pessoas. As regras variam de país para país, mas em geral necessitam de testes prévios em animais. Segundo a Anvisa “Todos as matérias-primas adquiridas devem passar por testes de segurança para determinar sua dose letal mediana bem como outros índices de segurança e confiabilidade”. Esses testes não precisam ser feitos pela companhia em si, se outra companhia fez, ou algum laboratório, em algum momento da história, então é seguro. O pulo do coelho (não resisti) das companhias cosméticas é que cada material bruto precisa ter sido testado, mas o produto final em si, mistura de todos os ingredientes, não precisa ser testado em animais. Então uma empresa cosmética não precisa ter testes em animais (a não ser na China, em que o teste é obrigatório).

Os testes de materiais cosméticos atualmente (apesar da opinião popular achar que não) são bem raros, restrito a produtos recém-descobertos e promissores. E quem normalmente faz o teste do material bruto é o fornecedor, quando desenvolve o produto, não a indústria cosmética. E nesse caso, os testes animais são necessários para garantir sua segurança, pelas leis de proteção ao consumidor e segurança no trabalho. Sim, alternativas como modelamento computacional ou cultura de célula estão ficando cada vez mais modernas, mas ainda não são boas o suficiente para serem o único modelo de teste. Enfim, não temos nada ainda que realmente simule um ser vivo em toda sua complexidade.

Em 2009, devido a pressão popular, a União Europeia baniu as companhias de testar seus produtos em animais para coisas como irritação cutânea e toxicidade aguda, assim como importar produtos que façam esse tipo de teste. E em 2013, foram proibidas de testes de toxicidade a longo prazo. Se não me engano, aqui no Brasil, São Paulo também baniu em 2014. Eu não sei vocês, mas essa lei na minha opinião não muda muita coisa em relação ao estado atual das coisas, só impede a criação de novos produtos pelas companhias cosméticas. As companhias agora só vão mudar cores, cheiros e embalagens, mas os produtos serão os mesmos. A inovação na área de cosméticos acaba. Por mim está ok, os produtos que temos hoje já estão bons o suficiente e não são essenciais para a vida. Então se outros países aprovarem também, ótimo.

Mas as industrias poderiam fazer novos produtos usando ingredientes naturais, aí seria inovador e seguro, não?

Existe esse conceito errado que produtos naturais não precisam ser testados, pois são seguros. Todos os ingredientes em cosméticos, remédios, etc, precisam ser testados em animais, sejam naturais ou sintéticos. Natural não é o contrário de tóxico. O visco é uma planta que sempre aparece nos filmes Norte-Americanos de Natal, mas é altamente tóxica, causando vômito e alucinação, não queira usar no seu creme caseiro. Extrato de algas é algo que é comum em cosméticos, mas dependendo da alga usada, pode causar a morte. Mamona? O óleo é usado em cremes e outros produtos, mas se não retirado de forma sintética, virá com ricina, que mata. Além do mais, quantidade importa e muito. Muitas vezes pequenas quantidades de algo tóxico não causam mal nenhum, enquanto que grandes quantidades de algo não-toxico matam. Toxina Botulínica está aí para mostrar. Em pequenas quantidades, acaba com as rugas das madames. Em quantidades maiores, mata bem mortinho.

Eu sou a favor dos protetores dos animais e quero o fim da experimentação animal em todos os campos.

Acreditem ou não, eu também, mas não para agora. Para quem não entende, os testes em animais variam em gradação desde o conhecimento puro (de como o organismo funciona) até ensaios aplicáveis (que geram uma resposta específica). Esses testes acontecem nas universidades, industria farmacêuticas e outros. Não posso dizer no resto, mas nas universidades existe uma preocupação ética no uso dos animais, ou seja, existem regras claras do que pode e não pode ser feito, além de comitês e leis que julgam a necessidade ou não de algo ser feito. A criação e morte desses animais é realizada de modo a não causar dor nem sofrimento e caso alguma interferência que realizamos leve a isso, temos que tratá-los para que não sofram. Cientistas são seres humanos como vocês, ou vocês acham que nós gostamos ou achamos super legal olhar para um animal sentido dor? Não mesmo, achamos péssimo! e fazemos tudo para que a nossa pergunta seja respondida com nenhuma ou o mínimo possível de dor por parte do animal. Nós somos adeptos dos 3 Rs, mas com outra conotação: reposição (caso possa ser usado outro método ao invés do animal, usaremos o outro método), redução (sempre usaremos o mínimo de animais necessários para obter uma resposta e tentaremos achar várias respostas com o mesmo grupo) e refinamento (usar sempre técnicas e meios que causem o maior bem-estar dos animais envolvidos na pesquisa). Todos os avanços que tivemos na área de saúde foram baseados no uso de animais. Como já disse, não temos ainda a tecnologia para abrir mão desses testes, e trabalhamos duro para poder finalmente ter algo a altura e não precisar mais de animais. Mas isso ainda vai demorar muito tempo, ainda somos muito ignorantes das interações complexas entre moléculas, células, tecidos, órgãos ou mesmo o ambiente que nos cerca. As organizações de proteção animal alegam que os modelos animais não conseguem prever o efeito real em humanos, e eles estão certos nessa alegação, mas esses modelos nos dão pistas bem realistas do que deve acontecer, que poderão ser esclarecidas no teste em humanos. O que fazer nesse caso, já que não usaremos animais? Aceitar nossa ignorância e abandonar pesquisas que podem levar a cura e prevenção de doenças humanas e animais? Testar diretamente em humanos, sem escalas? Isso gera muito debate e pessoalmente concordo que prefiro que nenhum animal sofra só para que eu não tenha rugas no futuro, mas no quesito doenças, eu quero sim a cura e prevenção das doenças parasitárias, viróticas, cânceres e outras, não apenas para os humanos, mas para os animais e plantas. E no momento, nós precisamos dos experimentos em animais para alcançar isso.

No fim das contas, a mensagem aqui é que seu produto cruelty-free foi testado em um animal sim (ainda que a muito tempo), mas não o produto final que está nas suas mãos. E essa bobagem toda de selo é só chamariz para aumentar vendas e posar de legal para consumidor bobo. Nenhuma companhia quer fazer teste em animais. É caro e é péssimos para a imagem pública da companhia. Não compre por causa de propaganda enganosa, compre porque o produto tem um bom custo-benefício.

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