Óleo de cobra, ou como fazer os outros de trouxa.

Óleo de cobra, ou como fazer os outros de trouxa.

Cura tudo!

Óleo de cobra é uma tradução para a expressão em inglês “snake oil”, que significa um produto medicinal fraudulento ou não comprovado, mas que se estende a qualquer produto de qualidade ou benefício questionável. E a expressão vendedor de óleo de cobra ou “snake oil salesman” é dada a pessoa que vende um produto sabendo que é uma fraude, sendo o próprio um charlatão. É um clássico dos filmes, onde um viajante mascate para no meio da cidade e faz uma demonstração do produto milagroso que cura tudo, curando um comparsa infiltrado no público de alguma doença inexistente. Realizada as vendas, o vendedor some da cidade e não volta nunca mais.

Dr. Terminus de Meu Amigo o Dragão.

Conta a lenda que trabalhadores chineses imigrantes, construindo a primeira ferrovia transcontinental, deram aos colegas norte-americanos óleo de cobra para passar nas articulações doloridas. E não, eles não estavam de zoação com os gringos. O óleo de cobra é um tratamento da medicina tradicional chinesa usado localmente para aliviar dores. E a tal cobra usada é a cobra d’agua erabu.

Como em todo lugar do mundo, uns espertinhos logo ficaram sabendo da novidade e maravilhados com o poder de aliviar dores do óleo de cobra, decidem vender suas próprias versões. Mas como vocês podem imaginar, era muito mais fácil forjar um óleo do que arrumar uma cobra, ainda mais uma cobra d’agua chinesa.

Você pode substituir o óleo de cobra por inhame, por exemplo

Mas como tudo pode piorar, entra no jogo o marketing. Para dar mais credibilidade ao óleo de cobra, alteram a origem tradicional do produto, vendendo como sendo um remédio tradicional dos nativos americanos, feito com óleo de cascavel. E aumentaram o poder do remédio, de alivio de dores locais para a cura de todos os males. Junta uma das cobras mais perigosas para os norte-americanos com a cura de todos os males e pronto, impossível não ter um remédio sucesso de vendas. Ainda mais se tivesse demonstrações medicinais estilo circo com a cascavel. Show!

Como essa combinação pode dar errado?

Um dos mais famosos fabricantes e manipulador de cascavéis foi Clark Stanley, conhecido como “O Rei da Cascavel”. Ele alegava que tinha conseguido a sua formula do povo Moki, e sempre vencia cascavéis em suas apresentações. Mas a mare de azar dos trouxas que acreditam em tudo estava chegando ao fim, com mais médicos acreditando nas teoria de germes causando doenças, baseado em Koch e Pasteur e pelas denúncias de que indivíduos fraudulentos vendiam venenos como remédios, forçando a necessidade de se colocar os ingredientes nos frascos de formulas manipuladas. Um certo dia, o governo americano apreendeu um lote do Stanley’s snake oil e realizou a análise do conteúdo. Encontraram: óleo mineral, 1% de gordura (provavelmente de vaca), pimenta vermelha, terebintina e cânfora (uma composição bem parecida com os desentupidores de nariz atuais, não é mesmo?). Mas nada que parecesse ser de cobra. O governo processou o produtor e a partir daí a expressão óleo de cobra ganhou força como algo fraudulento. Coitado do óleo de cobra!

Não sei o que dizer, só sentir!

Mais recentemente, na década de 80, Richard Kunin, pesquisador com alguns trabalhos na área de ômega-3, teve a ideia de que o óleo de cobra poderia ser uma boa fonte de ômega-3, pois animais que vivem no frio são bons produtores dessa gordura. Ele foi a Chinatown (São Francisco) e comprou o óleo de cobra tradicional para análise. Ele também adquiriu umas cascavéis e extraiu a gordura. Sua análise mostrou que o óleo de cobra chinês continha 20% de ácido eicosapentaenoico (EPA), um dos dois tipos de ômega-3 mais usados pelo nosso organismo. Já o óleo de cascavel só tinha 8,5% de EPA. E comparando, o salmão, principal fonte de ômega-3 da alimentação, tem 18% de EPA (amigos veganos, na semente de linhaça não tem EPA, mas tem ácido alfa-linoleico, seu precursor, podem ficar de boas na veganice!).

Hoje já se sabe que a ingestão de EPA e ácido docosaexaenoico (DHA) parecem melhorar o inchaço e dor em condições inflamatórias como a artrite. Além disso, alguns estudos mostram que existe absorção cutânea e melhora de sintomas como dor e inchaço quando aplicado localmente. Ou seja, os chineses estão certinhos em usar óleo de cobra chinesa para tratar inchaço e dor articulares e musculares.

Óleo de cobra funciona? 10 pontos para a Grifinoria, digo, 10 pontos para a Medicina Tradicional Chinesa.

Outra história, mas relacionada. Tem uns 6 meses atrás, muitos amigos meus apareceram tomando um tal de Souvenaid®. E como sempre, começaram a tomar e depois ficaram preocupados e vieram me perguntar o que era: Uma checagem rápida no Google e dei a seguinte resposta: óleo de peixe sabor iogurte de baunilha!!!

Danone, não me processa que eu sou pobre!

Tomaram esporro, estavam tomando suplemento vitamínico. Em todos os meus anos de trabalho na área de saúde, pesquisa e educação, sempre tive professores e colegas unanimes na ideia de que suplementos só devem ser tomados por aqueles que NECESSITAM (ou seja, ninguém que conheço). Se você come pelo menos uma vez por semana salmão ou sardinha ou atum ou bacalhau ou truta ou frutos do mar ou ovo ou linhaça, entre outros, já está garantido em ômega 3, para que suplemento? E se não come, faça a si mesmo o favor de comer!

O souvenaid® é um composto de óleo de peixe e outras vitaminas. O princípio ativo é basicamente ômega 3. Eles começaram a tomar por que um “amigo do primo do vizinho” disse que era bom para memória. E sim, existem trabalhos publicados sobre o iogurte, mostrando melhora de memória em pacientes com Alzheimer e demência leve, mas quem já está com deterioração avançada não se beneficia. E é só. Nenhum trabalho com pessoas normais, pois é considerado um remédio, para ser tomado por pessoas com doenças neurodegenerativas (onde aparentemente funciona). Meus amigos são meio malucos gente boa, mas que eu saiba ninguém está demente ou com Alzheimer, ou seja, fora do perfil do remédio. Só eu sei ler na embalagem “USAR SOB ORIENTAÇÃO DE NUTRICIONISTA OU MÉDICO”.

Fazendo uma busca na literatura, existe uma correlação positiva entre o consumo de peixes e frutos do mar e memória em seres humanos saudáveis, em qualquer idade estudada. Quanto maior o consumo de peixes, melhor é a memória!! Mas é uma correlação, não quer dizer que necessariamente é por causa do omega-3. Pode ser ou não ser. Na dúvida, coma peixe (ou linhaça).

Outros efeitos do ômega-3 em humanos são bem controversos. Você encontra um pouco de tudo e não chega a nenhuma conclusão. De forma resumida, parecia ter efeitos cardioprotetores, diminuindo a chance de infarto em homens e mulheres, apesar de estudos maiores e mais recentes não mostrarem o mesmo. Parece aumentar a sensibilidade a insulina em Asiáticos, mas tem efeitos de diminuir a mesma em Caucasianos. Também tem um possível efeito protetor contra câncer de mama e coloretal em homens, mas não em mulheres. Ou seja, bagunça.

Concluindo, o óleo de cobra chinesa não é um óleo de cobra, por mais estranho que isso soe.

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